A nova participação cívica da sociedade “amadora”

Antes de mais nada, mil perdões pela ausência aqui do blog, mas precisávamos de um tempo para organizar tudo que vocês mandaram e dar uma resposta sobre o andamento do projeto. Terminamos de catalogar todas as milhares (sim, porque foram milhares) de fotos enviadas ao nosso e-mail e estamos agora no processo de produção da trilha sonora do vídeo. Terminada e gravada a música, vamos entrar em ilha de edição. Eu sei, leva tempo, mas o resultado precisa estar à altura da colaboração de vocês. A lembrar que vocês ainda podem se fazer presentes no projeto postando suas fotos em nosso TUMBLR.

É preciso dizer, no entanto, que toda a ideia por trás do #eusougay, de como surgiu e até onde chegou (e chegará), me parece fazer cada vez mais sentido em um Brasil que todo dia é pautado por temas como homofobia, misoginia, antissemitismo e medo dessa #gentediferenciada.

O que me leva a perguntar: fomos dormir tranquilos e acordamos em uma realidade paralela, agressiva e hostil? Ou passamos todo esse tempo dormindo diante dessa realidade? Por experiência própria, sou levada a acreditar que a segunda pergunta soa mais coerente e digna de resposta.

Digo isso porque iniciativas como o #eusougay e o próprio churrasco da #gentediferenciada que aconteceu em São Paulo neste último sábado apontaram para uma só direção: que as redes sociais estão ajudando um nunca antes visto compartilhamento de ideias e opiniões que, de todos os lados, sendo água ou óleo, emergem à superfície desse copo que é bebido em largos goles pela mídia convencional. Esta, por sua vez, realimenta e legitima toda a discussão. E, acreditem, a agressividade da ignorância humana diante de sua condição humana pode até nos parecer nova diante dessa enxurrada de fatos e artigos, mas não é. Nem no mundo e muito menos no Brasil, o país do “homem cordial”.

O ódio, esse específico da intolerância diante das minorias, que vemos agora ser disparado em frases no Twitter, em piadas de humoristas bem sucedidos, em deputados espertinhos que estão ganhando mídia a troco de sua ignorância, é algo que vem sendo esquentado em fogo baixo desde antes do 11 de Setembro, quando os debates sobre intolerância de identidades se reduziam aos grupos de estudos acadêmicos e à turma que lia Homi K. Bhabha.

Após o 11 de Setembro, esse ódio, de tudo, de todos, foi ganhando contornos de preocupação política global e local. Vimos, pela televisão, o ódio ferver. Mas agora vemos e vivemos, na internet, o ódio explodir quente em nossa pele. E tudo isso porque estamos dispostos a deixar de ser meros espectadores desse mundo que antes parecia ser mais um aquário.

Porque agora nós temos o Facebook, o Twitter, o SMS e todos os mecanismos tecnológicos para mostrar ao mundo nossas fotos, estilo de vida, música que gostamos, frases de efeito que adoramos. Nosso lazer é nossa exposição. E não queremos nos mostrar apenas para os próximos, porque divertido mesmo é se revelar para os estranhos. Não se sabe os efeitos disso na vida privada de cada um. Mas está mais do que claro para o bem cívico público, isso é sensacional e espetacular!

Se por um lado essas tecnologias deixam mais latentes a estupidez de um grupo descoordenado de pessoas cujos nortes ideológicos são instituições moralmente falidas, elas ajudam a emergir uma compaixão pelo próximo, esta sim organizada, ainda que não liderada. Mesmo que este próximo seja, assim, diferente de você. Sofremos hoje no País de um analfabetismo humano crônico, de gente que não aprendeu em casa, na escola, ou no trabalho, que respeitar é preciso, viver não é preciso.

Que vivamos, imprecisamente, essa feliz prosmicuidade do compartilhamento de ideias que ajudem e construam. Que essa seja a zeitgeist de nossa geração. Porque quem pode fazer acontecer agora é toda a sociedade civil, essa amadora na produção de informação. A lembrar que amador vem do latim “amare”, ou seja, amar. Nossa motivação vem do amor que temos, e nada pode passar incólume a isso.

Ou vocês acham que a recente decisão do STF foi algo que surgiu naturalmente do iluminismo de seres esclarecidos? Ou acham que o governo de São Paulo não se sentiu extremamente incomodado com o churrasco da classe média bem vestida que pode e deve protestar em nome de todos?

Pela resposta que estamos dando a tudo isso, posso afirmar, mesmo ainda um tanto quanto pessimista com os sistemas que regem a humanidade, sou muito otimista com todos nós. Quem sabe essa nossa predisposição para se expor e vigiar os outros não nos ajude a entender que, de fato, somos. Funciona assim numa sessão de terapia. Pode funcionar na rede coletiva.

E, de repente, aquela frase tão popular em adesivos de carro – “não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho” – aos poucos pode se tornar algo de dimensão mais complexa. Vai que, entendendo quem somos, possamos um dia colar no vidro: “Não sou tudo que amo, mas amo tudo que sou”.

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Sobre carol

enough about me, let's talk about you

Publicado em maio 18, 2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 9 Comentários.

  1. carol fiquei emocionada com seu comentário fica tudo tão claro e deixa ver como vamos nos acomodando e acostumando com os fatos ao longo da vida mas é bom saber que acordamos a tempo beijos

  2. Estou feliz com as pessoas se mobilizando… com a interação nas redes sociais e que muitos estão saindo da sua posição confortável e fazendo alguma coisa. E devo dizer que a campanha #EuSouGay me inspirou a criar a campanha #EuSouBruxo que esta dando seus primeiros passos para conseguir o que nos é dado por lei; liberdade de escolha de crença e religião. Abençoada seja querida. Beijos! #gratidão

  3. Cara…. Caetaneou!

  4. Carol:

    Também podemos dizer, “amo tudo o que sou e amo tudo o que o outro é.”
    Trabalho incrível!

    Um largo sorriso!

  5. Posso dizer que amo o que sou e, no mínino, busco respeito pelo que sou.

    A sua campanha é um máximo, quando o vídeo sair postarei no blog.

    Boa sorte aí na edição!

    Abç,

  6. Po, coloca minha mae de 80 anos como a musa campanha!!!! Ela ta louca pra se ver no video!!Todo dia pergunta! Ela manda beijos!

  7. Onde está? Já saiu? Participações para a campanha mas o resultado da camanha?

  8. veja a novela digital que fala de pessoas sem genero… http://meunomeeken.blogspot.com
    Se gostar, por favor, divulgue

  9. Carol o que esta acontecendo com o projeto.. Já se tem 1 mês desde sua ultima postagem! Nos de notícias ok!? Beijão!

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